05 Julho 2009

Luís de Camões (1524?-1580)

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Oh, não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo?
O que tu só farás, não me fugindo.

«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que, nesses fios de ouro reluzente,
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

«Nesta esperança te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela!
E se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere!»

Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas lhe dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso de alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

in Os Lusíadas Canto IX, 79-83

30 Junho 2009

Dar e Receber

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Dar e Receber
(Música e Letra: António Variações)

Dar...Dar...
Dar e Receber...
Dar...Dar...
Dar e Receber...

Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...
Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...

Devia ser a nossa forma de viver
Dar e Receber...

Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...
Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...

Fazer a troca sem ganhar nem perder...
Dar e Receber...

Dar Dar...
Dar Dar...
Dar o direito a toda a voz
Esse Respeito que queremos para nós
Dar atenção ao nosso shamã
Compensação de quem sabe escutar

Dar Dar...
Dar Dar...

Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...
Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...

Devia ser a nossa forma de viver
Dar e Receber...

Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...
Dar Dar
(Dar Dar)
Dar e Receber...

Fazer a troca sem ganhar nem perder...
Dar e Receber...

Trocar...
Trocar...
Trocar a ideia p'ra conhecer
Essa candeia que queremos acender
Trocar o espaço
Trocar a dança
Trocar os gestos que alargam uma aliança
Trocar o corpo
Trocar a voz
Trocar o canto p'ra não cantarmos sós
Trocar o espaço
Trocar a dança
Trocar os gestos que alargam uma aliança
Trocar a ideia p'ra conhecer
Essa candeia que queremos acender
Trocar o corpo
Trocar a voz
Trocar o canto p'ra não cantarmos sós
Trocar o corpo
Trocar a voz
Trocar o canto p'ra não cantarmos sós

Trocar...
Trocar...

Dar...Dar...
Dar e Receber...
Dar...Dar...
Dar e Receber...

26 Junho 2009

Os meus postais VII

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Tataouine - enviado por Matevž Faganel em Junho de 2009

20 Junho 2009

Pela Igualdade

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© Katarzyna Szaulińska, 2009

Recuamos a 1876 e a um artigo do grande Victor Hugo - Totor, para os amigos - sobre a abolição da pena de morte em Portugal.

"Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa."

Portugal foi dos primeiros no mundo a abolir a pena de morte e o primeiro a consagrar essa proibição constitucionalmente. No século XIX foi um acto pioneiro o facto de uma potência colonial como Portugal era proibir a pena capital. O grande romancista e poeta francês apressa-se a escrever um artigo para felicitar Portugal. Hoje em dia, trata-se de um marco civilizacional. A pena de morte está proibida na generalidade dos países europeus em todas as circunstâncias. Portugal ficou na História por excelentes motivos dessa vez. a pena de morte é um caso de caminho para a dignidade. Mas poderia falar também do voto da mulheres, do casamento inter-racial ou do divórcio.
Foi pouco a pouco, e sobretudo depois de se terem assassinado uns aos outros em guerras cada vez mais letais, que as pessoas se foram apercebendo do significado de "direitos humanos". A segunda metade do século XX pautou-se por várias conquistas, inimagináveis em tempos não muito remotos e num período de tempo tão curto. É neste momento do texto que faria sentido falar do Movimento pela Igualdade, mas os meus textos não têm que ser assim tão previsíveis.
Eu não gosto de casamentos. Na verdade, o conceito de conjugalidade cria-me pesadelos. E por isso não é para apelar ao casamento que apoio o Movimento pela Igualdade: é pelo direito que assiste a TODAS AS PESSOAS a poderem casar-se e divorciar-se como seria de esperar em qualquer pessoa cidadã de um país civilizado. A recente discussão sobre o casamento homossexual espanta-me, porque não entendo o que há de discutível nisso. Discutir direitos? Discutir a vida dos outros? Faz-me lembrar a discussão sobre o aborto. O país inteiro discutiu algo que não se discute nem se devia referendar: a consciência de cada um e o nosso poder de decidir não são discutíveis em países democráticos. Uma democracia é antes de mais escolha. É isso que a distingue. O poder de todos escolhermos não só quem nos governa mas também o direito a nossa vida, onde queremos viver, que profissão queremos exercer, como nos queremos vestir, com quem queremos morar, que carro vamos comprar, se vamos casar ou não, com quem nos vamos casar... A escolha é a génese da democracia. Ela fornece-nos os instrumentos para construir a nossa felicidade... ou não, porque ser feliz é também uma escolha. Se quiserem chamarei à escolha um instrumento da nossa dignidade. É por isso que não posso deixar de apoiar o Movimento pela Igualdade. Porque um país onde as pessoas se respeitam umas às outras é um país mais desenvolvido, mais digno e mais próspero.
Para quem pensa que o casamento homossexual é uma questão ridícula, eu vou tentar explicar que não o é. Um cidadão de pleno direito não pode nem deve ver reduzidas as suas liberdades em função da sua orientação sexual. O casamento é uma conciliação, um projecto de muitos, que todos querem anunciar publicamente. Há festas, há celebrações. Duas pessoas unem-se e mostram-no à sociedade. O casamento é um contrato mas também uma forma de oficializar o amor e de iniciar uma vida a dois, que pode ou não durar para sempre. Porquê restringi-lo a pessoas de sexos diferentes? Pode uma sociedade que quer caminhar para o desenvolvimento, a igualdade de oportunidades e a prosperidade para todos continuar a manter esta situação? Pode a discriminação contra as pessoas homossexuais continuar a ser permitida e encorajada pelo Código Civil? Não se trata de destruir a civilização ocidental, não se trata de destruir as famílias. Muito pelo contrário. Trata-se de reconhecer as novas famílias, de enriquecer a nossa sociedade com famílias que têm todo o direito a existir. Trata-se de salvaguardar para a chamada civilização ocidental o respeito pelas pessoas, por todas as pessoas e isso não é destruir a civilização, mas sim salvá-la do autismo e da intolerância em que por vezes parece querer mergulhar. Pode uma civilização que tanto apregoa a dignidade persistir na manutenção da discriminação e da desigualdade?
Hoje decorreu em Lisboa a Marcha do Orgulho LGBT. Talvez a expressão marcha do orgulho leve muita gente a equivocar-se. Talvez os estereótipos persistam por demasiado tempo na cabeça das pessoas. É mais fácil ver o mundo através de estereótipos do que tentar entendê-lo e assimilá-lo na sua complexidade. A Marcha tem uma função importante de chamar a atenção sobre o estigma e a discriminação de que as pessoas homossexuais ainda são alvo em Portugal. Ser homossexual não é uma opção sexual, como erradamente se lê em tantos meios de comunicação. Os homossexuais confrontam-se com a discriminação desde a infância. Na escola, em casa, na infância, na adolescência ou na idade adulta as pessoas homossexuais sofrem constantes humilhações e vêem-lhes negados vários direitos, como o casamento. O casamento civil não é hoje uma miragem como era há vários anos. Mas ele deve servir para que os Portugueses olhem uns para os outros sem ódio e ignorância, mas com compreensão e respeito. O casamento não irá acabar com as perseguições que tantos homossexuais são alvo principalmente em zonas rurais do nosso país. Mas é um passo vital para a luta contra a discriminação. O casamento não irá transformar de um momento para o outro as mentalidades de tantos pais e mães que olham para a homossexualidade dos seus filhos como um infortúnio ou doença. Mas é fundamental para que pouco a pouco a ignorância se desfaça.
Portugal foi dos primeiros a abolir a pena de morte e está muito a tempo de ser um dos primeiros a reconhecer o direito que todos os seus cidadãos devem ter a casar-se, independentemente da sua orientação sexual. Holanda (2001), Bélgica (2003), Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega e Suécia (2009) bem como alguns Estados dos EUA já reconhecem o direito do casamento aos homossexuais. E Portugal, quanto tempo mais vai demorar?

12 Junho 2009

Quatro

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Acho que já não tenho muito mais para escrever nestas mensagens de aniversário. É outra vez véspera de Santo António e o blogue está outra vez de parabéns (seja lá o que isso for).
Não há grande coisa a dizer, a não ser que é um prazer estar convosco mais um ano, agradecer a todos os leitores e (poucos) comentadores e prometer que para o ano cá estaremos uma vez mais. É preciso chegar aos quatro anos para a simplicidade ser cada vez maior. Numa penada está tudo dito. A emissão segue dentro de momentos...

11 Junho 2009

Los Abrazos Rotos

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Estreado em Março, mas miraculosamente ainda em cartaz nos cinemas espanhóis, Los Abrazos Rotos é o mais recente filme de Pedro Almodóvar e deverá chegar em Setembro às salas portuguesas.
Trata-se de um filme de memórias. Mateo Blanco é um argumentista cego e exige que o tratem pelo seu pseudónimo Harry Caine. Outrora foi realizador e conheceu Lena. Los Abrazos Rotos conta essa história de amor, vivida durante as filmagens de Chicas y Maletas, o último filme de Mateo. Mateo revive os acontecimentos trágicos que envolveram a sua história com Lena. Outrora secretária, Lena vive com um homem muito mais velho, empresário rico que se transforma em produtor de cinema e que é obcecado por ela. Chegará a altura de ter que o deixar. Lena sonha ser actriz e o filme de Mateo é uma oportunidade. Chegará também a altura de ela e Mateo poderem declarar-se felizes e juntos. Ou se calhar não tão juntos assim: a tragédia e a felicidade andam sempre de braço dado. Há um último beijo e... o fim.
Almodóvar desenhou muito bem todo o argumento. Há constantes analepses sem que o espectador se sinta perdido. É a morte do velho homem de negócios com quem Lena vivia que faz despertar as memórias. Há muitas coisas que em 14 anos não ficaram resolvidas. Num filme sobre a rodagem de um filme, Almodóvar convoca vários tesouros da sétima arte: está lá Belle de Jour (Lena chama-se Severina, como a personagem de Deneuve no filme de Buñuel), está lá o penteado a fazer lembrar Audrey Hepburn...
Almodóvar descreve o filme como "uma história de amor louco". E é isso que se passa de facto. A história de Mateo e Lena, mas também a união do velho empresário com ela, são retratos das diferentes faces do amor: a obsessão, o ódio, a euforia, a separação, a entrega, o sacrifício...
Los Abrazos Rotos é um belo filme que conta com uma Penélope Cruz extraordinária e com um argumento apurado, que, pese embora não tenha vencido em Cannes, o podem fazer sonhar mais alto.

09 Junho 2009

Matisse

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© Gonçalo Figueiredo Augusto, 2009

Abriu hoje a exposição dedicada a Matisse no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. A exposição é dedicada ao período entre 1917 e 1941, talvez o menos conhecido da carreira do pintor.
A exposição encontra-se dividida em seis partes e conta não só com quadros, retratando paisagens, varandas de Nice, jardins e retratos de mulheres mas também com algumas esculturas em bronze.
Os quadros expostos resumem muito bem a pintura de Matisse: a importância da cor, as formas, as sombras e uma perspectiva muito particular.
As paisagens e interiores do início da exposição dão lugar a retratos de mulheres, onde o pintor busca uma composição particular: vemos mulheres e o mar, vemos o mesmo cenário captado num ângulo diferente, a mesma mulher, o mesmo quarto, mas um outro mar que se vê pela janela, um horizonte longínquo. Nos anos 20 o nu tornou-se de certa forma o objecto preferido de Matisse. A exposição reúne alguns desses quadros, e assiste-se à transição dos nus estáticos para pintura decorativa e finalmente para uma pintura de extremos: formas estáticas versus luz e de movimento. Matisse recuperou depois a sua pintura "intimista", mas onde as linhas se tornam mais simples e as cores menos sólidas. A exposição termina com alguns desenhos aos quais Matisse chamou "Temas e Variações" como se de uma peça musical se tratasse.
A exposição está aberta ao público até dia 20 de Setembro, no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid.