Quando Albert Nobbs se estrear nos cinemas em Portugal no início de 2012, todos irão compreender a por que é que Glenn Close vai figurar entre as nomeadas para o Oscar de Melhor Actriz, 23 anos depois da sua última nomeação. Será a sexta nomeação da actriz... e provavelmente virá (pela sexta vez) de mãos a abanar. Não por culpa da interpretação no filme: se Albert Nobbs vale a pena é pelo corpo que Glenn Close lhe dá. Albert trabalha há décadas como mordomo num hotel de Dublin, fazendo-se passar por um homem. Há uma mulher que todas as noites despe o papel de mordomo e conta as gorjetas anotando tudo religiosamente num caderninho. Sob o chão do seu quarto está uma fortuna e Albert sonha abrir uma tabacaria. Mas talvez seja tarde demais para libertar-se da prisão que construiu para si mesma. Há um novelo que prende Albert e do qual ele não se pode soltar. Há uma vida que nunca foi vivida, que foi constantemente adiada e que agora corre o risco de ficar para trás. Glenn Close tem provavelmente o papel mais desafiante da sua carreira, mas a concorrência é de peso e tal como Albert Nobbs poderá muito bem ver a oportunidade passar. A vida é demasiado curta para fingirmos sermos quem não somos, ouve-se a certa altura no filme. É uma excelente mensagem. Ficará pelo menos isso.
conhecimento do inferno
16 Dezembro 2011
Albert Nobbs
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Albert Nobbs
13 Dezembro 2011
We Need to Talk About Kevin
"I used to think I knew. Now I'm not so sure."
Claro, no final perguntamo-nos: é por culpa? E não pode ser só culpa. É por remorso? E também não pode ser só remorso. É para tentar entender? E se calhar ninguém pode entender, está para lá do inteligível. We need to talk about Kevin (Temos de falar sobre Kevin) é um filme perturbador, porque no íntimo tentamos entender por que é que aquela criança é assim, tentamos dominar-nos para não sová-la, ficamos estupefactos com a indolência daqueles pais. E não adivinhamos o final todo, apenas um bocadinho de um final cruel, nem tanto pela tragédia mas pela ausência de sentimentos, não há remorsos, não há culpa, nem lágrimas há... Eva - brilhantemente interpretada por Tilda Swinton - assiste a tudo desde o princípio quase imperturbável. Claro que sabemos o que lhe vai na cabeça, mas não a vemos fazer nada. Todos desistiram de mudar o que não pode ser mudado. Kevin não é problemático, já que ele incorpora o próprio problema, que vai germinando, ficando mais denso até se tornar incontrolável. Acompanhamos Eva nesta dor. Eva antes de ser mãe, Eva como mãe e Eva depois da tragédia. Tilda Swinton é uma actriz rara e é a sua interpretação que põe este filme de pé. O filme é um monumento visual. Cada imagem não é por acaso, cada momento tem uma justificação na construção de cenas que são autêntica poesia. No início Eva afoga-se na tomatina (o vermelho vivo em que ela parece nadar é uma cena e pêras). No final, percebemos que há muito que perdeu o pé. "Falaremos sobre Kevin por muito tempo", escreveu o The Guardian. É bem possível que falemos sobre Kevin a vida inteira...
We need to talk about Kevin (Temos de falar sobre Kevin) estreia-se em Portugal a 16 de Fevereiro de 2012.
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Temos de falar sobre Kevin
30 Novembro 2011
Fernando Pessoa (1888-1935)
Fernando Pessoa retratado por Almada Negreiros
TABACARIA
Não
sou nada.
Nunca
serei nada.
Não
posso querer ser nada.
À
parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas
do meu quarto,
Do
meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E
se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais
para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para
uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real,
impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com
o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com
a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com
o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou
hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou
hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E
não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão
uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A
fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De
dentro da minha cabeça,
E
uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou
hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou
hoje dividido entre a lealdade que devo
À
Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E
à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei
em tudo.
Como
não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A
aprendizagem que me deram,
Desci
dela pela janela das traseiras da casa.
Fui
até ao campo com grandes propósitos,
Mas
lá encontrei só ervas e árvores,
E
quando havia gente era igual à outra.
Saio
da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que
sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser
o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E
há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio?
Neste momento
Cem
mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E
a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem
haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não,
não creio em mim.
Em
todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu,
que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não,
nem em mim…
Em
quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não
estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas
aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim,
verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E
quem sabe se realizáveis,
Nunca
verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O
mundo é para quem nasce para o conquistar
E
não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho
sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho
apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho
feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas
sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda
que não more nela;
Serei
sempre o que não nasceu para isso;
Serei
sempre só o que tinha qualidades;
Serei
sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem
porta,
E
cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E
ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer
em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me
a Natureza sobre a cabeça ardente
O
seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E
o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos
cardíacos das estrelas,
Conquistámos
todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas
acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos
e ele é alheio,
Saímos
de casa e ele é a terra inteira,
Mais
o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come
chocolates, pequena;
Come
chocolates!
Olha
que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha
que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come,
pequena suja, come!
Pudesse
eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas
eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito
tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas
ao menos fica da amargura do que nunca serei
A
caligrafia rápida destes versos,
Pórtico
partido para o Impossível.
Mas
ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre
ao menos no gesto largo com que atiro
A
roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E
fico em casa sem camisa.
(Tu,
que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou
deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou
patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou
princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou
marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou
cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou
não sei quê moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo
isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu
coração é um balde despejado.
Como
os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A
mim mesmo e não encontro nada.
Chego
à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo
as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo
os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo
os cães que também existem,
E
tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E
tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi,
estudei, amei, e até cri,
E
hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho
a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E
penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque
é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez
tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E
que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz
de mim o que não soube,
E
o que podia fazer de mim não o fiz.
O
dominó que vesti era errado.
Conheceram-me
logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando
quis tirar a máscara,
Estava
pegada à cara.
Quando
a tirei e me vi ao espelho,
Já
tinha envelhecido.
Estava
bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei
fora a máscara e dormi no vestiário
Como
um cão tolerado pela gerência
Por
ser inofensivo
E
vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência
musical dos meus versos inúteis,
Quem
me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E
não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando
aos pés a consciência de estar existindo,
Como
um tapete em que um bêbado tropeça
Ou
um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas
o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o
com desconforto da cabeça mal voltada
E
com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele
morrerá e eu morrerei.
Ele
deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A
certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois
de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E
a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá
depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em
outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará
fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre
uma coisa defronte da outra,
Sempre
uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre
o impossível tão estúpido como o real,
Sempre
o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre
isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas
um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E
a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me
enérgico, convencido, humano,
E
vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo
um cigarro ao pensar em escrevê-los
E
saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo
o fumo como a uma rota própria,
E
gozo, num momento sensitivo e competente,
A
libertação de todas as especulações
E
a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois
deito-me para trás na cadeira
E
continuo fumando.
Enquanto
o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se
eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez
fosse feliz.)
Visto
isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O
homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah,
conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O
Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como
por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me
adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o
Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-Jan-1928
Álvaro de Campos, 15-Jan-1928
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Fernando Pessoa
28 Outubro 2011
125 anos da Estátua da Liberdade
23 Outubro 2011
L' Innocente
É a mão de Visconti que vemos no início do filme: a sua mão direita - a única que conseguia mover após o AVC que sofrera em Julho de 1972 - vira as páginas do romance no qual o filme é baseado: L'innocente de Gabriele d'Annunzio. No derradeiro filme, Luchino Visconti volta ao território da infelicidade conjugal e da traição. Antes de elogiar as actuações de Giancarlo Gianinni e Laura Antonelli (porque elas precisam de ser elogiadas como deve ser), há que referir os meios extraordinários do filme. Já não se fazem filmes assim. Nem falo apenas do guarda roupa, das tapeçarias ou das malas Louis Vuitton. Falo também dos magníficos palácios onde as filmagens decorreram, da elegância dos cenários, da figuração - Visconti chamou o seu rol de sobrinhas para o filme -, dos recitais de piano, da esgrima, da ária de Orfeu e Eurídice de Gluck. Os pormenores contam e nos filmes de Visconti contam muito. O ambiente decadente da aristocracia italiana não foi apenas majestosamente retratado, foi radiografado. E com isto chego à magnífica interpretação de Giancarlo Giannini (nomeado para o Oscar de melhor actor em 1976 pelo filme Settebellezze). Giannini é o atraente aristocrata Tulio Hermil, casado com Giuliana (Laura Antonelli) e apaixonado pela sensual condessa Teresa Raffo. Tulio não quer abandonar a mulher e ignora-a, até descobrir que também ela tem um amante. Giuliana consegue provocar o ciúme no marido, mas não está preparada para o seu terrível plano quando este descobre que ela espera um filho de outro homem. Pode salvar-se um amor que está perdido desde o primeiro momento? Tulio acha que sim. O desespero trespassa o filme inteiro. O de Tulio, claro. Mas o de Giuliana também. A tragédia adivinha-se desde o primeiro minuto. Giuliana enganou Tulio e engana-o ainda através de uma criança que não é dele. Tulio não o suporta. Mas nada poderá trazer de volta um amor que já não existe. Visconti não viu o filme terminado. Em Março de 1976, durante a montagem do filme (que havia de estrear dois meses depois no Festival de Cannes, sucumbe a um novo acidente vascular cerebral. O filme fica como um testemunho do que mais puro se pode fazer no cinema: criar imagens para que nos vejamos, nós mesmos, despidos no ecrã. Visconti conseguiu-o muitas vezes. E como se de uma ópera trágica se tratasse, cai o pano.
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O Inocente
22 Outubro 2011
Franz Liszt
O pianista húngaro Ferenc Liszt (Franz Liszt na versão alemã) nasceu há 200 anos em Doborján (actual Raiding na Baixa Áustria). Liszt dispensa quaisquer apresentações: foi um dos maiores pianistas de sempre e as suas obras ainda hoje nos deliciam em salas de concerto por todo o mundo. A sua obra, o seu estilo, o seu virtuosismo são hoje parte da nossa herança musical. E não podia ser de outra maneira.
Ler +: How Franz Liszt became the world's first rock starLer +: Happy Birthday, Liszt: why I'm now a fan of Franz
Rapsódia Húngara Nr 2, S. 244
Intérprete: Lang Lang
Londres, Royal Albert Hall - 31 Agosto 2008
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Franz Liszt
06 Outubro 2011
Tomas Tranströmer
O poeta sueco Tomas Tranströmer foi hoje galardoado com o Prémio Nobel da Literaura 2011. A Academia Sueca considerou que "através das suas imagens condensadas e translúcidas, [Tranströmer] nos oferece um novo acesso à realidade".
Tomas Tranströmer nasceu em 1931 e lançou a sua primeira obra, "17 Poemas" ("17 dikter"), em 1954. Estudou Psicologia e poesia na Universidade de Estocolmo, tendo trabalhado como psicólogo em prisões e centros de detenção juvenil. A sua obra está traduzida em mais de 60 idiomas. Em língua portuguesa existem poemas seus traduzidos em colectâneas, quer em Portugal ("Vinte e um poemas suecos", Vega, 1981) quer no Brasil (revista "Poesia Sempre", 2006). Tomas Tranströmer sofreu um acidente vascular cerebral em 1990 e desde então a sua condição física levou a que a sua actividade se tenha reduzido muito. Tranströmer vive com a sua mulher Monica numa das ilhas do arquipélago de Estocolmo.
Lisboa
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.
“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.
Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”
Tomas Tranströmer
(Tradução de Vasco Graça Moura)
Funchal
O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos.
Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atlântida, pequenas explosões de alho.
O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.
Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram!
Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado.
E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o mosaico nasce.
Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas.
Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia ilha jaz,
expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados
amigavelmente, suaves controlos, todos falam, fervorosos, na língua
estranha. “um homem não é uma ilha”. Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que propaga o silêncio.
Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um livro que só no escuro se consegue ler.
Tomas Tranströmer
(Tradução de Luís Costa)
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